Dá para ser liberal com o nome de Deus?
A primeira impressão ao se ler a sinopse de A volta do Todo Poderoso é ruim. Pronto, lá vem mais um filme com heresias, inventando moda com Deus e usando o nome do Senhor em vão. Afinal, ignorar o terceiro mandamento virou algo tão comum nos dias de hoje que um desrespeito a mais não seria de espantar ninguém. Mas, curiosamente, o filme é uma fábula com pontos positivos. Como entretenimento, o longa-metragem é capaz de divertir do começo ao fim, graças ao roteiro engraçadíssimo de Steve Oedekerk, Joel Cohen e Alec Sokolow (os três de origem judaica). Mas não dá para se sentir confortável com uma história em que o Senhor é apresentado com tanta irreverência, a ponto de ser chamado de ”the Big Man Himself” (”o próprio Homenzarrão”). Por mais que se queira ter boa vontade com as mensagens positivas transmitidas na trama, o temor ao Altíssimo não permite ao cristão sério ficar alheio ao retrato que se faz dEle em A volta do Todo Poderoso.
Steve Carrell dá vida novamente ao hilário apresentador de TV Evan Baxter, de Todo Poderoso. No novo filme, ele pede a Deus (Morgan Freeman) para ajudá-lo a mudar o mundo e recebe, então, a missão de construir uma arca como a de Noé para salvar casais de animais e algumas pessoas. Obviamente, de início ninguém leva fé nele, nem seus amigos nem seus filhos ou sua esposa (interpretada por Lauren Graham, a Lorelay Gilmore da série de TV Gilmore Girls, Tal mãe tal filha, no Brasil). Em pouco tempo, a coisa muda de figura.
Os roteiristas encontraram, em diversos momentos, jeitos de passar a perna no que a Bíblia diz. Por exemplo, sobre o fato de o Senhor ter feito a promessa de nunca voltar a destruir a humanidade com um dilúvio (Gn 9.11). O filme tenta ensinar uma lição com o argumento que usa para sobrepujar esse fato bíblico, mas não adianta: jamais podemos abrir espaço para a ficção contradizer a Bíblia, por melhores que sejam as intenções. Se começarmos a abrir exceções em nome do relativismo ou da diversão, daqui a pouco estaremos batendo palmas para os Códigos DaVinci da vida.
Também há pontos heréticos na narrativa, como na fala que
diz que ”Deus vive em todas as coisas criadas”. Isso chama-se animismo e não é bíblico. Em outra passagem, o Senhor diz que a decisão de destruir a humanidade nos tempos de Noé foi um ato de amor e não de ira. Biblicamente, isto está errado. Em Gênesis 6.5-12 fica claro que a maldade humana irou e entristeceu Deus e o levou a provocar o dilúvio, como ocorreu depois com Sodoma e Gomorra.
É fato que A volta do Todo Poderoso tem pontos a favor.
Apresenta Deus como o ser poderoso e amoroso que é. Mostra que Ele sempre nos conduzirá durante as provas e dificuldades, em vez de impedir simplesmente que elas ocorram. Destaca que o Senhor responde às orações de modos inesperados e que sempre há razões para que as tristezas e os sofrimentos ocorram. O Pai garante a Evan que tudo o que faz é movido pelo amor, e tudo o que Evan tem de fazer é seguir seus mandamentos e ter fé. A história também desafia o público a reordenar suas prioridades, fortalecer os laços de família e assumir uma maior responsabilidade social.
Fica a cargo de cada um julgar se é possível relevar o humor e a irreverência com que Deus e o relato do dilúvio são apresentados no filme em função de uma historinha divertida e com algumas boas mensagens morais. Se formos seguir ao pé da letra o que diz a Bíblia, veremos que não é possível. Cabe a pergunta: dá para ser cristão sem seguir a Bíblia ao pé da letra?
Maurício Zágari Tupinambá
Os filmes são avaliados mediante a análise de suas qualidades artísticas e técnicas e, principalmente, de sua compatibilidade com a fé cristã.
















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