A invenção do cinema evangélico brasileiro * Artigo

29 05 2007

por Maurício Zágari Tupinambá

O cinema evangélico vem ganhando nos últimos anos um fôlego sem precedentes na história de Hollywood. Quando os executivos da indústria americana viram o quanto ”A Paixão de Cristo” faturou nas bilheterias, perceberam o potencial que os cristãos representam para seu negócio: sim, crentes gostam de bons filmes e estão dispostos a pagar para vê-los. Essa percepção levou a um boom de produções voltadas para o segmento evangélico do mercado, inclusive da parte dos grandes estúdios. Um exemplo é a 20th Century Fox que, como a coluna Cinevídeo, da ENFOQUE, divulgou em dezembro, decidiu investir em produções destinadas aos cristãos e criou a Fox Faith, sucursal voltada exclusivamente a esse público. Mas…e no Brasil? Será que existe mercado para filmes do gênero? A verdade é que ainda não se sabe, simplesmente porque não há uma produção significativa de filmes evangélicos nacionais. Ou melhor: não havia. Pois agora uma geração de gente ousada está despontando, decidida a apostar nesse mercado. Estaremos nós vivendo a gênese do cinema gospel brasileiro?

“A produção de cinema evangélico de ficção é escassa no país. Resume-se a quatro ou cinco filmes, entre longas e curtas”, afirma Paulo Garcia, organizador do FestiCurtas, festival voltado para filmes cristãos de curta-metragem. ”É muito raro vermos um longa-metragem evangélico feito no Brasil, muito raro mesmo”. Esse administrador, membro da 3a Igreja Batista do Plano Piloto, em Brasília (DF), sabe do que está falando. Pelas sete edições do FestiCurtas já passaram cerca de 40 curtas com temática gospel, de diferentes realizadores.

Paulo diz que, em geral, o que existe no país são produções amadoras, independentes, a maior parte realizada por gente que participa de grupos de teatro evangélicos. ”A grande maioria é de documentários feitos por agências missionárias, principalmente da Convenção Batista Brasileira”. A explicação está no custo: rodar documentários é mais barato do que obras de ficção.

Diante desse território inexplorado, surgem desbravadores, uma turma de cineastas part-time que com a cara, a coragem e muita boa vontade está disposta a inventar o cinema evangélico brasileiro. Um deles é o missionário brasileiro Moisés Menezes, ex-obreiro da Junta de Missões Mundiais. Ele já produziu um curta com enfoque missionário que foi semi-finalista no Festival de San Antonio, nos Estados Unidos, e um longa chamado “O Menino e o Barco”.

Com 60 minutos de duração, o filme foi rodado no sul do Chile e é falado em inglês, com legendas em português.O que esperamos ao passar o filme no Brasil é que as pessoas o conheçam e sejam desafiadas a produzir filmes cristãos com qualidade profissional”, afirma Moisés. “O Menino e o Barco” estreou no Chile em abril deste ano.

Outro bandeirante da sétima arte é o técnico de mecânica Marco Aurélio da Costa Sant’anna, 33 anos, membro da Igreja Metodista Ortodoxa da Morada do Campo, em Campo Grande (RJ). Ele é co-roteirista, produtor e diretor de ”Elemento Suspeito”, longa-metragem de ação que usa a violência do Rio de Janeiro como pano de fundo para falar do amor cristão e do resgate de pessoas da marginalidade. ”O enfoque estético será mais urbano, sombrio, com muita violência. A trilha acompanhará o estilo hip-hop, rap gangsta”, explica Marco. Notou como os verbos que ele usou estão todos no futuro? Por uma simples e triste razão: o filme por enquanto só existe no papel. Eis o grande desafio do pioneirismo: falta dinheiro. E sem dinheiro, nada de filme.

“Precisamos de um milhão e meio de reais. Estamos inscrevendo o projeto na Lei de Incentivo Fiscal e na Lei Rouanet, além de buscar investimentos privados”, afirma. A verdade é que o fato de ser um longa de teor evangélico espanta os investidores. Mas não os colaboradores. Uma campanha lançada na internet atraiu 534 pessoas, que abraçaram a idéia e se ofereceram para participar, por trás e à frente das câmeras, de forma voluntária. ”Se formos bem-sucedidos, eles terão uma porcentagem das bilheterias”, promete.

“Elemento Suspeito” já tem um padrinho de peso. O ator Leandro Firmino da Hora, protagonista de ”Cidade de Deus”, aceitou fazer o papel principal e assumir a assistência de direção. O nome de Leandro pode pesar a favor do projeto, que tem ambições. ”Nossa intenção é lançar o filme em grande circuito, sem ressaltar seu caráter evangélico. Com isso, queremos conquistar o maior público possível, sem que preconceitos impeçam a ida das pessoas aos cinemas”, diz.

Menos ambicioso é o projeto de lançamento de ”As estrelas me mostram você”, vendido por seus produtores como ”a primeira comédia romântica cristã produzida no Brasil”. O longa-metragem, da produtora catarinense Red Films, será lançado apenas em DVD. A um custo de R$ 150 mil, dez por cento do orçamento de ”Elemento Suspeito”, está na reta final das filmagens e tem previsão de chegar às locadoras de todo o Brasil em setembro.

Rodado também com uma equipe voluntária, a iniciativa tem à frente o produtor musical Fábio Faria e o grupo de teatro da Igreja Plenitude, em Joinville (SC). Fábio escreveu o roteiro e co-dirige ao lado de sua esposa, Karin.

Consciente da dificuldade de penetrar no restrito mercado cinematográfico nacional, Fábio confessa: ”Financeiramente não é algo viável. Não visamos ao lucro. Mas tenho fé que conseguiremos entrar na casa de não-evangélicos abordando temas que interessam a todos, sem ostentar que vamos falar de Jesus”.

O projeto tem cunho evangelístico, mas também busca oferecer uma opção de entretenimento para o público cristão que não quer ver filmes violentos, com nudez ou linguagem chula. ”Cremos que podemos alcançar milhares de vidas”, afirma.

Sobre o fato de estarem pisando num terreno praticamente virgem, os cineastas evangélicos brasileiros revelam entender que são muitas as dificuldades, mas ambos crêem que é possível vencê-las. ”A música gospel no Brasil até bem pouco tempo atrás era amadora e tinha um público restrito. Hoje, é extremamente profissional, comercial e tem um público fiel. Queremos fazer o mesmo com o cinema”, conclui Fábio.

Como o público evangélico, desacostumado a assistir a produções cristãs, recebe a idéia de um filme nacional do gênero?

Um bom laboratório para se responder a essa pergunta são fóruns de discussão na internet. Diante da notícia do lançamento de ”As estrelas me mostram você”, 29 irmãos deixaram seus comentários num blog e as reações foram divididas. Abaixo, alguns comentários.

A favor:

· Amei essa iniciativa, porque nunca no Brasil houve um filme igual”

· “Legal essa notícia, pelo menos teremos filmes com um bom enredo e melhor ainda, nacional”

· “Gosto muito de saber que nós, evangélicos, estamos crescendo nessa área também! Já estamos nota 10 com a música gospel em geral, e agora isso é um novo desafio”

· “Finalmente!”

Contra:

· “Não temos tradição no cinema e possivelmente nos próximos mil anos não teremos, porque a arte de interpretar nunca foi o nosso forte e, por favor, sem este papo de que ‘vamos engrandecer a Deus’ que isto hoje é só um jargão”

· “Por que não buscar as obras da igreja e expor para o mundo ao invés de pegar as coisas do mundo e querer colocá-las dentro da igreja?”

· “Iiiiiiiiiii, não sei não. Normalmente em filmes do mundo sobre relacionamentos as pessoas se beijam, né? Será que nesse filme não vai ter nenhum beijo? (…) Se tiver beijo é do desagrado de Deus”

· “Meio ‘nada a ver’ esse negócio, hein…esquisito pra caramba”

(Publicado originalmente na revista ENFOQUE GOSPEL de junho/2007)

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4 responses

25 11 2007
Rebeca

“Eu acho que é uma ótima iniciativa que acabará por revolucionar os gêneros cinematográficos do país, além de ser uma forma de ação missionária de grande alcance, afinal de contas, seria uma forma atualizada de espalharmos um pouquinho do Reino de Deus pelo mundo.”

27 03 2008
Ed

A iniciativa é fantástica, estamos com projetos semelhantes aqui em Santa Catarina, nos aperfeiçoando na área cinamatográfica e começando pequenas produções totalmente digitais, para num futuro próximo lançarmos também um longa!

9 04 2008
Oscar Mendes

Sobre a “Invenção do cinema evangélico brasileiro” dou graças a Deus e oro constantemente para que essa iniciativa alcance todas as artes. Só tenho uma observação a respeito: Esse comentário a meu ver subestima não só o público evangélico que tem número suficiente para manter o mercado, como também esconde a iniciativa cristã de nunca se omitir sobre sua fé e conviccão de que representa verdades as quais todos devem saber: “Nossa intenção é lançar o filme em grande circuito, sem ressaltar seu caráter evangélico. Com isso, queremos conquistar o maior público possível, sem que preconceitos impeçam a ida das pessoas aos cinemas”. Deve ser repensado.

15 04 2008
joao e. vilella ouverney

entendo que a ideia nao é apenas ótima, é tambem um segmento de mercado absolutamente viável para o publico brasileiro (cristao ou não,exemplo”Desafiando os gigantes”). Estou atento a este mercado ,e tenho projetos para ele.

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