O Suspeito * Crítica

8 01 2008

O Suspeito Um mundo onde tudo é relativo

O Suspeito 4Séculos 5 e 4 a.C. Na Grécia antiga, surgia um grupo de filósofos – os sofistas – que desenvolveu e sistematizou uma linha de pensamento que, ao longo dos últimos 2.500 anos, tornou-se bem presente no dia-a-dia da raça humana: o relativismo. ”Tudo é relativo, não há verdades ou valores absolutos”, diriam pensadores como Górgias e Protágoras, os dois sofistas mais famosos da época de Sócrates, Platão e Aristóteles. Os séculos se passaram, Maquiavel reinventou essa filosofia sob o mote ”os fins justificam os meios” e, hoje, o século 21 vive um relativismo mais forte do que nunca. É isso o que comprova “O Suspeito”.

Quanto vale uma vida humana? É válido matar um homem para poupar muitos? É justificável torturar pessoas para salvar outras? Os direitos constitucionais de um indivíduo são intocáveis? O filme mostra que, nos Estados Unidos pós-11 de setembro, a resposta a essas perguntas tornou-se, simplesmente: “depende”. Tudo o que seria sólido e unânime é, na verdade, frágil e… relativo.

O Suspeito 1É fácil notar que o relativismo ocupa um lugar de destaque na sociedade atual. Como conseqüência do relativismo, os antigos sofistas gregos estabeleceram que ”o homem é a medida de todas as coisas”. Ou seja: os valores absolutos deixaram de existir, o que importa é a MINHA verdade. No que se refere a religião, então, nem se fala. Não se pode mencionar um Deus que tem regras e normas absolutas, que não tolera certas práticas. Que tem valores e verdades inflexíveis. Que é o que é. Hoje em dia, cada homem faz Deus à sua imagem e semelhança, um frankenstein daquilo que cada um deseja. É o “MEU deus”. Que, de repente, é diferente do seu. Seu deus tolera o aborto, por exemplo, pois VOCÊ, a medida de todas as coisas, é a favor do aborto. Ou do divórcio. Ou da pena de morte. Ou da sonegação de impostos. Ou de seja lá o que for. Cada um que monte a sua própria religião, de acordo com as suas conveniências, e o seu deus concordará com tudo – afinal, você é a medida de todas as coisas. O Criador do universo que diga amém à vontade de cada um.

O relativismo rotula os cristãos de fanáticos, intolerantes, segregacionistas, censores, autoritários, preconceituosos. O relativismo é contra o direito dos cristãos de crer em verdades e valores absolutos. De crer que só um Caminho leva a Deus. E, ao fazer isso, os relativistas se tornam intolerantes, segregacionistas, censores, autoritários e preconceituosos.

O Suspeito 2“O Suspeito” desnuda o relativismo. Não falando diretamente sobre religião – embora ela esteja muito presente, na forma da ortodoxia muçulmana – mas sobre direitos básicos de um inivíduo que vive em uma democracia. Quando o governo americano suspeita que o químico Anwar El-Ibrahimi (Omar Metwalli) está envolvido com um grupo terrorista, simplesmente o seqüestra, manda para o Egito e inicia uma série de torturas desumanas. Sem direito nem mesmo a um advogado ou a avisar a esposa (Reese Whiterspoon), só resta a Anwar o desespero. O jogo político por trás de sua prisão revela o relativismo presente nas instâncias mais altas dos poderes que nos governam. Que, em última análise, vive entocado em diferentes estratos da sociedade civil.

O Suspeito 3”O Suspeito” é um filme pesado. Mostra cenas explícitas de tortura e a explosão de uma bomba numa praça pública, com todas as mortes que o atentado provoca. Para crianças, não é um filme recomendável. O elenco é talentoso, amparado por nomes de peso. Além de Reese Whiterspoon, Jake Gyllenhall e Meryl Streep fecham o triunvirato de indicados ao Oscar.

Atores com excelente pedigree, uma trama bem amarrada, um roteiro cronologicamente inteligente e um medo bem atual são os ingredientes principais de “O Suspeito”. Juntos, eles refletem a assustadora realidade de que vivemos à mercê de sofistas que, hoje, ocupam altos cargos de liderança na nossa sociedade. Isso torna o mundo um lugar mais seguro? É relativo…

Maurício Zágari Tupinambá
Equipe CINEGOSPEL

Cotação: bom

[veja o trailer]

Anúncios

Ações

Information

One response

8 01 2008



%d blogueiros gostam disto: