Tenho muito medo dos cristãos * Artigo

2 04 2008

Somos fascistas? Tenho muito medo de vocês

“Vocês são fascistas. Tenho muito medo de vocês. Sempre prontos para se valer da ignorância das massas. Minha dúvida é: isso para vocês é somente um negócio ou realmente acreditam nas baboseiras que pregam? Cinema é arte. Não deve ter vinculação alguma com religião. O que você querem é fundamentalismo. Sou professor e crítico de cinema. Enquanto viver vou combater o moralismo que vocês pregam. Sexo é errado, drogas são erradas, tudo errado. Salvo prostrar o joelho no chão e ficar com os olhos dirigidos para o céu. Na ilusão de estar vendo Deus. Tenho muito medo de vocês, enquanto viver defenderei a razão e o pensamento científico, o ceticismo acadêmico e a recusa aos dogmatismos. Cinema não é esfera para religiosos, se circunscrevam aos assuntos do batistério.”

Recebi o e-mail acima de um internauta chamado Davidson. As considerações dele me fizeram refletir e escrever uma resposta aberta, que publico aqui. Que cada um leia e chegue às próprias conclusões:

“Caríssimo Davidson,
li o seu comentário, feito em nosso site. Gostaria de dizer que respeito sua opinião, embora evidentemente não concorde com ela. Sobre o que você comentou, me permito fazer algumas observaçõess:

“Vocês são fascistas” – gostaria de entender em que sentido somos fascistas. Pela suposta intolerância? Você não me pareceu muito tolerante nos seus comentários. Isso faz de você um fascista? Creio que não. Apenas demonstra que acredita em algo e que defende suas crenças com unhas e dentes, “enquanto viver”, como você mesmo disse. Se ser fiel ao que se crê, advogar sua ideologia e defendê-la é ser fascista, creio que tanto eu quanto você estamos no mesmo barco. Se somos fascistas, pelo menos somos educados e não chamamos idéias que contrariam as nossas de “baboseiras”. Os fascistas queimavam livros com idéias contrárias às suas. Nós somos favoráveis ao livre diálogo. Somos a favor do livre-arbítrio. Somos a favor da liberdade de escolha. Se Jesus nunca impôs suas idéias a ninguém, quem somos nós para tentar fazê-lo. Agora, por favor, nos conceda o direito democrático e educado de crer no que cremos e de expressar livremente nossas opiniões sem nos ofender. A isso chama-se democracia. Liberdade de expressão. Educação.

“Vocês são fascistas” – “Vocês” quem? Certamente uma pessoa culta como você sabe que entre os 3 bilhões de cristãos que existem no mundo há uma variante enorme de crenças: católicos romanos, ortodoxos, protestantes tradicionais, pentecostais e muitas outras tradições. Assim como não posso dizer que todo crítico de cinema é intransigente, embora haja alguns que sejam, também não posso considerar que 3 bilhões de pessoas sejam igualmente fascistas só porque têm pontos de fé em comum. Ou será que você estava se referindo apenas a nós, inofensivos integrantes do Cinegospel?

“Sempre prontos para se valer da ignorância das massas” – desculpe-me, meu caro, mas esse comentário parece demonstrar uma certa ignorância sobre a realidade do universo cristão, o que não creio ser o caso. Embora existam sim pessoas que se dizem líderes cristãos e que na verdade apenas se aproveitam dos humildes (e desses, nós, cristãos sinceros e honestos, queremos tanta distância quanto você), existe uma massa enorme de pessoas que seguem a Cristo conscientemente, sabendo o que estão fazendo, após muito estudo, investigação, leitura e comparação. A sua generalização causa espanto.

Basta você ler um pouco mais sobre grandes filósofos que ajudaram a construir os 2.000 anos de história do cristianismo, como Agostinho, Tomás de Aquino, Anselmo, Lutero e Thomas-à-Kempis e você vai entender que existe muito mais na vida e nos ensinamentos de Cristo do que uma maquiavélica vontade de manipular as massas. E não é porque existe meia dúzia de pilantras que dizem ser sacerdotes cristãos em programas de televisão para arrecadar dinheiro que todos nós somos assim. Essa sua afirmação, além de deselegante, poderia demonstrar um pensamento raso e desinformado. O que, tenho certeza, você não é.

Esqueça a teologia. Já ficou claro que você não crê nela. Pense apenas nos benefícios seculares. Procure saber o bem que milhares de ministérios cristãos promovem por todo o mundo, levando ajuda humanitária, alimentos, medicamentos, água potável, moradia, instrução formal e muitos outros benefícios para milhares de desassistidos por todo o planeta. Somos todos fascistas manipuladores de massas? Prefiro crer que somos algo além disso.

“Isso para vocês é somente um negócio…?” – todos os integrantes do Cinegospel atuam no site sem receber salários ou pagamentos. Assim como você no seu blog.

“…ou realmente acreditam nas baboseiras que pregam?” – vamos desconsiderar o termo ofensivo que você usou. Nos concentremos apenas nas idéias. Eu respeito as coisas em que você acredita. A isso chama-se tolerância. Respeito o que você escreve nas suas críticas, embora discorde de muito do que você diz (sim, fui ler sobre suas idéias. Fui pesquisar. Me informar). Afinal, vivemos num mundo plural, e o respeito pelo diferente é o que nos permite conviver em paz. Pessoas que botam o dedo na cara de outras dizendo “realmente acreditam nas baboseiras que pregam?” daqui a pouco podem acabar incendiando quem discorda delas na fogueira (já ouviu falar de Inquisição?) ou lançando um avião sobre prédios comerciais.

Sim, Davidson, acreditamos naquilo que pregamos. Acreditamos em Deus. Acreditamos num Ser que deu o peteleco inicial no Big Bang. Acreditamos na ética que Jesus ensinou, de amar o próximo como a si mesmo, embora sejamos imperfeitos e reconheçamos que muitas vezes não amamos o próximo como deveríamos. Por isso vamos à igreja, para refletir sobre nossos erros e tentar ser pessoas mais próximas daquilo que acreditamos ser o ideal de ser humano. E, acima de tudo, para cultuar esse ser insondável e incompreensível racionalmente que nos convida para um relacionamento pessoal. Somos humildes o suficiente para saber que existe muito mais além daquilo que nossos olhos podem explicar. Não somos fanáticos que defendem aquilo em que crêem “enquanto eu viver” de uma forma cega. Não somos como Einstein, que ignorou a física quântica enquanto perdia tempo tentando encontrar a sua “Teoria de tudo”. Não, meu caro, estamos abertos para tentar entender aquilo que está além dos estereótipos. Você está?

● “Cinema é arte. Não deve ter vinculação alguma com religião” – meu caro Davidson, sobre esse comentário temos que abordar duas frentes:

1) As artes sempre estiveram ligadas à religião. O livro de Salmos é um livro de cânticos…e música é arte. De Mozart a Roberto Carlos, incontáveis foram os artistas da música que associaram sua arte à religião. Os grandes compositores clássicos compuseram Kiries, Aleluias, Glorias e tantos outros tipos de música sacra que até hoje encantam gerações. Na pintura, é difícil imaginar como estariam hoje o Louvre, o British Museum, o Prado sem obras relacionadas à religião. A arte sacra é a mais prolífica de toda a história da humanidade. Mesmo nas religiões não-cristãs. Veja os gregos. Veja os romanos. Os babilônicos. Os egípcios. Esculturas foram feitas por todo o mundo com relação à religião. Na literatura é até difícil, senão impossível, dimensionar a produção religiosa mundial. No teatro, se não fossem as tragédias gregas, diretamente relacionadas à religião da época, o que seria da história dos palcos? E a Ilíada? A Odisséia? Não eram as divindades gregas protagonistas dessas histórias?

Agora, responda: por que com a sétima arte seria diferente?

2) Como você bem sabe, caro professor, o cinema é muito mais do que arte. Cinema é propaganda. É ideologia. O american way of life foi vendido para todo o mundo pelo cinema. Cinema foi arma na guerra fria. Leni Riefenstahl não foi apenas uma artista, foi uma vendedora de nazismo via cinema. O cigarro foi vendido aos borbotões graças aos artistas que fumavam. Logo, todos sabem que o cinema não é apenas a maior diversão. Ou uma arte inócua, que passa despercebida. Cinema influencia. Cinema vende idéias. Cinema conquista. Cinema ofende. Cinema emociona. Cinema afeta o nosso emocional.

Assim, se o cinema vende ideologias que ofendem nossa religião e nosso senso ético, qual é o grande crime em falar sobre isso? Criticar histórias que transmitem mensagens contrárias ao que cremos seria uma atitude fascista? Pelo que eu saiba, o que está associado ao fascismo é a censura e não a crítica livre.

Você deixa seus filhos consumirem qualquer coisa que passa diante deles? Ou faz comentários com eles sobre o que considera certo e errado? Instrui. Orienta. Você tem amigos? Compartilha com eles suas opiniões? Isso é uma atitude fascista? Não creio.

Quem vive sem diferenciar o certo do errado acaba matando, desviando dinheiro do INSS, furando a fila do cinema, falsificando carteira de estudante. Orientar alguém sobre o que se acredita ser certo e errado, sobre o que se acredita ser uma mensagem positiva ou negativa, não é ser fascista, meu caro, é ser responsável. É ter moral, algo tão em falta nesse nosso Brasil de hoje. Se você quiser combater nosso “moralismo”, fique à vontade.

A questão é: o que é certo e o que é errado? Aí podemos ter saudáveis divergências de opinião. Agora, Davidson, que sejam saudáveis, por favor, sem palavras ofensivas, como convém a cavalheiros.

“Cinema não é esfera para religisosos, se circunscrevam aos assuntos do batistério” – meu caro, religiosos são pessoas comuns como você, que se preocupam com política, com economia, assuntos internacionais, ciência, esportes e… cinema. Não somos monges. Fazemos parte da sociedade e tudo o que está nela é esfera para nós. Imagine se eu dissesse que você, por ser crítico de cinema, devesse se circunscrever apenas às salas de exibição! No mínimo você riria na minha cara. Somos seres planetários, prezado, e tudo nos diz respeito. Nosso horizonte é bem amplo e não tacanho.

E se você acha que devemos nos trancar no gueto do batistério, lembre-se de quem eram as pessoas que trancaram em guetos quem eles consideravam diferentes. A história se repete: do gueto de Varsóvia ao gueto do batistério.

“Sexo é errado, drogas são erradas, tudo errado” – se já não tivesse ficado claro que você é uma pessoa bastante culta, eu poderia até pensar que seu conhecimento do cristianismo é muito limitado a poucos conceitos. Sexo é errado? Claro que não, desde que feito dentro de um contexto adequado. Estão aí os milhares de abortos feitos todo ano pelo mundo, as milhares de gestações de adolescentes despreparadas emocionalmente e economicamente, os filhos dessas gestações transformando-se em bandidos, e tantas outras conseqüências do sexo irresponsável que não me deixam mentir. Sobre as drogas… pegue o jornal, Davidson! Quem você acha que promove a violência no Brasil de hoje? É o tráfico, meu caro. Se deixarmos de lado as milhares de vidas destroçadas pelo vício das drogas e pensarmos apenas no aspecto social (como se isso fosse possível) vamos ver milhares de pessoas mortas todos os anos por causa da violência financiada pelo tráfico, guerras em favelas, balas perdidas, terrorismo urbano. Mas parece que os intelectuais que fumam seu baseado nas festinhas e nos shows preferem se esquecer disso. Santa hipocrisia! Graças a Deus não é o seu caso. Nem o meu: entre colaborar com esse câncer social e advertir contra ele, fico com a segunda opção.

“Enquanto viver defenderei a razão e o pensamento científico, o ceticismo acadêmico e a recusa aos dogmatismos” – Faz muito bem, Tomás de Aquino também defendeu, assim como Descartes. Ninguém espera que toda a humanidade acredite em apenas uma coisa. Mas lembre-se que o próprio Kant defendeu que razão não explica fé e fé não explica razão. São duas coisas separadas. Tertuliano mesmo disse no século terceiro que não havia “relação entre Atenas e Jerusalém ou entre a Academia e a Igreja”.

Por outro lado, quem diria, Tomás de Aquino estabeleceu, com base no pensamento científico aristotélico, suas cinco “provas” racionais da existência de Deus e, quem diria, Descartes (o racionalista, o cartesiano!) mesmo afirmou, em 1642, que “Deus é um ser extraordinariamente perfeito” e desenvolveu todo um pensamento para justificar a existência de Deus! Que coisa, o pai do racionalismo moderno, o defensor-mor da razão e do pensamento científico recusava o ceticismo acadêmico… e confessava acreditar em Deus!

“Tenho muito medo de vocês” – não tenha medo de nós, Davidson, tenha medo daqueles que querem trancar em guetos quem pensa diferente. Tenha medo de quem estereotipiza grupos inteiros. Tenha medo de quem generaliza. Tenha medo de quem faz comparações e analogias esdrúxulas e agressivas. Tenha medo de quem acha valores amorais transmitidos pelo cinema como algo normal, algo que não merece ser comentado. Tenha medo de quem critica a livre expressão.

Ou melhor, não tenha medo deles. Ore por eles.

Deus te abençoe!
Um abraço carinhoso,
Maurício Zágari Tupinambá”

.

Maur�cio Zágari Tupinambá - Jornalista e professor de TeologiaMaurício Zágari Tupinambá
Jornalista e professor de Teologia
Equipe CINEGOSPEL

Anúncios

Ações

Information

One response

13 04 2008
* * * C I N E G O S P E L * * * Cinema do ponto de vista cristão †

[…] Tenho muito medo dos cristãos “Não tenha medo de nós, tenha medo daqueles que querem trancar em guetos quem pensa diferente. Tenha medo de quem estereotipiza grupos inteiros. Tenha medo de quem generaliza. Tenha medo de quem faz comparações e analogias esdrúxulas e agressivas. Tenha medo de quem acha valores amorais transmitidos pelo cinema como algo normal, algo que não merece ser comentado”. leia mais […]




%d blogueiros gostam disto: