Stop-Loss * Crítica

5 06 2008

Remédio amargo

Poucos filmes me deram tanto trabalho na confecção de uma crítica quanto ”Stop-Loss”. Porque, por um lado, ele é um longa-metragem brilhante. Mas, por outro, é extremamente ofensivo para os olhos. Que cotação dar a uma produção como essa? Gastei muito tempo refletindo antes de ligar o computador para escrever.

Tudo começa quando o sargento estadunidense Brandon King (Ryan Philippe, numa interpretação excepcional) volta do Iraque, depois de cumprir seu tempo na guerra. Ele planeja recomeçar a vida, casar e seguir adiante. Mas, no dia de sua dispensa oficial, chega uma ordem do governo mandando que ele volte para o front. O recurso legal que o Estado utiliza é o ”stop-loss” do título, uma norma que determina que um soldado fique numa guerra além do tempo previsto em contrato, ao bel-prazer das Forças Armadas. Só que King se revolta e recusa-se a voltar, dando início a um longo e complicado processo.

Fica claro que os realizadores de “Stop-loss” são contra a guerra e decidiram construir uma narrativa que mostrasse ao máximo os horrores do campo de batalha e os problemas que seguem os combatentes depois que eles voltam para casa: ímpetos de violência, desequilíbrio emocional, alcoolismo, vício em drogas, depressão, problemas mentais e tendências suicidas, entre outros. Por isso, o filme é visualmente um pesadelo: as cenas são explícitas e angustiantes, brutais até. Os cineastas exibem balas atravessando cabeças e pescoços. A vítima de uma explosão é apresentada em carne viva. Homens, mulheres e crianças aparecem mortos e despedaçados. Realismo é a palavra da vez. É evidente que os realizadores tinham a intenção de chocar para desmascarar como é a face feia da guerra. E é aí que o longa-metragem mostra seu brilhantismo.

A guerra é uma abominação. Em sua maioria, é motivada por vis interesses humanos, ganância e materialismo. E, nesse sentido, ”Stop-loss” revela com genialidade a monstruosidade de conflitos insanos como o do Iraque. Mas, para isso, a estratégia utilizada foi mostrar sem filtros a violência e a sanguinolência das batalhas, junto com a perversidade das conseqüências da guerra na vida dos ex-combatentes. Como equilibrar isso mediante a ética bíblica? Uma coisa é certa: este não é um filme para crianças ou adolescentes. É impactante demais. Também não serve para cardíacos e pesoas sensíveis. Só recomendo para adultos com estômago de ferro.

A conclusão é: se você é a favor da guerra (do Iraque ou outra qualquer), assista a ”Stop-loss”. Se você tem um amigo que é a favor, convide-o para ir ao cinema. Se está na dúvida entre ser ou não a favor, compre o ingresso. Mas se você já é antibelicista, não machuque seus olhos com as imagens duras e explícitas deste filme. Às vezes, o remédio mais amargo é o que cura a doença. Mas se você não tem a doença, para quê tomar o remédio?

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Maurício Zágari Tupinambá
Jornalista
Professor de Teologia Prática e Filosofia

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